sexta-feira, 25 de abril de 2014

Imigração - Parte I - O que esperar dela?



Luxemburgo


Uma vez, na Polícia Federal de Florianópolis, o Daniel, alemão, encontrou o Fritz (não lembro o nome dele), outro alemão e combinamos um barzinho na Lagoa... Ah... Que saudades da Lagoa:



Lagoa da Conceição, Florianópolis, Brasil




Entre uma cerveja e outra, que os alemães consideravam terríveis, pois não eram cervejas com a qualidade alemã, mas mesmo assim estavam tomando...



... o Fritz falou:



- Uma brasileira não pode ser feliz na Alemanha.



Eu não sei se ele falou “Europa” ou “Alemanha”, agora já não lembro mais. Mas o fato é que ele teve uma experiência ruim com a mulher brasileira dele. Depois de uns anos na Alemanha, ela pediu "Socorro! Quero voltar ao Brasil!".



Mesmo que muitos brasileiros não voltem, esse sentimento de saudades e melancolia é muito grande entre os brasileiros que conheci morando na Europa. Um ou outro, são desapegados, gostam da cidade em que vivem e não voltariam ao Brasil de jeito nenhum, mas mesmo assim, suas mães estão lá no Skype, toda semana. Quando não, todos os dias.



O imigrante, muitas vezes,  é mal visto na Europa, diferente do Brasil. Bom, claro que isso também não é regra. Tem muitos argentinos, bolivianos etc., que são mal vistos quando emigram para o Brasil. Assim como brasileiros de outras regiões que emigram para São Paulo, Brasília e são mal vistos pelos próprios brasileiros. Porém, a minha experiência é de que brasileiro gosta de um estrangeiro. Gosta de perguntar sobre o país dele, fica feliz se o imigrante sabe falar uma palavra em português, faz mil perguntas e deseja muito que o estrangeiro se sinta feliz no Brasil. Acha o máximo então, quando o estrangeiro que veio para ficar um ano, acaba escolhendo morar no país.

Afinal, o Brasil é um país de imigrantes... Quem seríamos nós se não fosse toda essa mistura?





Já na Europa, o sentimento que tenho é que o imigrante tem vergonha de ser imigrante. Principalmente quando não estão unidos, ou em bando. Na França, os franceses reclamam dos marroquinos, na Alemanha, dos turcos, em Luxemburgo, dos portugueses, e alguns desses imigrantes acabam incorporando uma culpa que não os pertence. Afinal, foram esses países que incentivaram a imigração, já que em um certo momento, eles precisavam muito desses imigrantes.





Outra coisa que acontece é eles receberem críticas por andarem em bandos, falando a língua de origem de seus países e não se “misturando”. Mas muitos imigrantes no Brasil, não tiveram essa dificuldade, como se tem na Europa... Será que o bando é formado por querer ou por exclusão daqueles que o criticam? Provavelmente há uma dose dos dois.



Ainda mais, existe uma cultura intensa, que ao estar em bando, não é perdida. Isso não pode ser tirado das pessoas...



Mas do que afinal os imigrantes sentem saudades? Se eles imigraram a situação em seus países não estava boa, salvo algumas exceções, de pessoas que imigram somente para acompanhar parceiros e parceiras.



Os brasileiros que conheço sentem saudades do jeitinho amoroso e acolhedor do brasileiro. Assim como do clima que é mais quente, das conversas, da comida... Cada um provavelmente sente saudades de sua família e amigos. Mas a maioria também diz que não sente saudade de muita coisa, como – burocracia do governo, leis apegadas a religião, e não aos cidadãos, violência, falta de segurança, falta de um bom sistema de transporte público, parques, etc.

Agora, será que é verdade que um brasileiro (a) não pode ser feliz na Europa? Mas é claro que pode! E muito!  Vai depender do que ele fizer com essa nova experiência, de como ele vai decidir vivê-la e com quem. Sentimos falta daquilo que acreditamos que nos tornava mais tranquilos e harmoniosos no Brasil. Mas esses brasileiros nunca mais serão mesmos... Na volta para o Brasil, também sentiram falta daquilo que alguns países proporcionam e que não há no Brasil.

Brasileiros felizes na Europa!




A minha experiência poderia ser descrita muito bem como um dia meu amigo me falou “Você tem um eterno dilema – devo viver no Brasil ou na Europa?”. Tenho uma dupla vida e tanto me encaixo bem numa, como noutra. Vejo o lado positivo e negativo dos dois mundos.  E sei que nunca mais vou me sentir tão completa em nenhum lugar que viver, pois sempre vou ter um pezinho (amigos, família, experiências marcantes) em cada canto desse mundo.



Isso não me tira do sério. Não acredito que onde as pessoas nascem é uma condenação. Cada um é livre, ainda bem, para escolher onde quer viver. Não devemos nada a governos nenhum. Assim como nossos pais não nos criaram para viver com eles eternamente. Nenhum investimento é em vão. Quem diria, por exemplo, que no meu trabalho em Luxemburgo eu estaria cuidando do bem-estar de brasileiros?



Num passeio de fim de semana, nos belos parques que existem por aqui, e que eu sentiria muita falta deles, encontramos um senhor de 91 anos cuidando de umas flores. Paramos perto dele, para apreciar o seu trabalho e não demorou muito para ele iniciar uma conversação. 

Parque do centro da cidade de Luxemburgo


Esse senhor luxemburguês lutou pela Alemanha na Segunda Guerra Mundial, contou histórias de guerra, de viagens que fez, daquelas que faltou fazer, das noras de Filipinas, dos segredos de jardinagem. Contou também que fugiu do exercito alemão, foi desertado... Um homem que conseguiu observar de perto que não fazia sentido nenhum seguir a tudo que um governo diz que o cidadão deve cumprir.



Imigração não é simplesmente mudar de país. É mudar de “mentalidade”, é misturar experiências e extrair algo novo delas. Por último, é questionar nossos direitos e deveres perante qualquer sistema político, social e até biológico. Afinal, é um desafio químico, físico e biológico para um brasileiro passar por um inverno europeu.

Links:
http://focus-migration.hwwi.de/Brazil.5879.0.html?&L=1

Cíntia

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Maconha liberada em Luxemburgo


Havia outro jeito de chamar sua atenção?

Esse post é sobre o congresso que participei no mês de março: Questions éthiques et contraintes de terrain dans le travail avec les consommateurs de drogues (Questões éticas e limitações de campo no trabalho com os consumidores de drogas), sobre a descriminalização do uso de maconha e políticas públicas relacionadas ao uso de drogas no Grão-Ducado.


Link para baixar todas as apresentações do congresso:

http://mag-net.eu/category/events/?archive



Não estava muito segura em ir para esse congresso, porque foi em francês e alemão... Ficava pensando, será que eu daria conta? É um tema com termos bem específicos, provavelmente eu desconheceria muitas palavras.



Mas fui. Cheguei lá e tinha de manhã aquele cafézão me esperando. Bolachas caseiras, aquelas do tipo que eu minha mãe e irmã íamos comprar em Santo Antônio do Pinhal quando morávamos em Campos do Jordão. As bolachas valiam a pena uma viagem... E bem, mais sucos, pãezinhos, chá... Delícia!




O congresso começou com uma apresentação bem importante – um psicólogo falando da questão ética em relação ao tratamento do uso de drogas.



Para ele os psicólogos têm que usar menos palavras como “você deve”, e sim “você quer?”. Ele começa sua apresentação com a pergunta: Sabem os consumidores de drogas o que é melhor para eles mesmos?



Outro palestrante alemão, que falou mais sobre as leis relacionadas as drogas, fez também piada do tamanho das palavras em alemão. “Não queria assustar os franceses”, disse ele, “mas preciso passar de slide e talvez apareça algo assustador para vocês”:



Betäubungsmittelverschreibungsverordnung



E eu e os franceses e belgas:





Mais tarde, o diretor da casa Abrigado (já vou falar dela), alemão também, levantou uma questão bem importante relacionada aos profissionais que trabalham com os usuários de drogas:







Isto é, temos nossa visão profissional, aquilo que aprendemos de “o que é uso de drogas” e como deve ser tratado os usuários de drogas, mas também temos nossos valores pessoais. E a pergunta é: sabemos realmente diferenciá-los quando estamos em ação no nosso trabalho?



Outros palestrantes vieram e de repente alguém, lá por meio-dia anuncia:



- Almoço de graça para os participantes!



E eu: What??? Primeiro, não precisei pagar, depois ainda tem palestras enriquecedoras e por último comida de graça? Quem está brincando comigo?





Mas para não ficar babando o ovo do congresso, vou explicar um pouco como funciona o tratamento dos usuários de drogas aqui em Luxemburgo.



Pera aí, por que alguém se interessaria pelo uso de drogas em Luxemburgo? Por curiosidade, questão profissional e porque talvez vai mexer com sua moral. Por ser brasileira e ter vivido sob um regime político muito ainda apegado a religião, talvez o que venha por vir é aborrecedor para muitos. Da mesma forma, no Brasil, eu só tive experiência, como psicóloga, em duas vertentes de tratamento de usuários de drogas: a) a tradicional medicamentosa/ psiquiátrica e b) a religiosa. Infelizmente não tive a oportunidade de trabalhar com o CAPS álcool e drogas, por exemplo.




Os pontos principais, para mim, são:



- A maconha é descriminalizada em Luxemburgo. Uma lei de 2001 descriminalizou o consumo de cannabis (bem como o transporte, a posse e a aquisição para uso pessoal). Isso significa que o uso de cannabis continua a ser considerado como uma atividade ilícita, mas a punição não vai mais incluir sanções penaisSentenças de prisão de 8 dias a 6 meses continua a ser aplicável, se o consumo de cannabis acontece na frente de menores, nas escolas ou no local de trabalho. Penalidades podem aumentar até 2 anos de prisão em caso de adultos que usam maconha com menores de idade.



- A declaração governamental de 2004 define o viciado em drogas como uma pessoa que necessita de assistência médica, social e psicológica e não um criminoso.



- A lei de 2001 dá uma nova dimensão aos cuidados de saúde, especialmente em relação as medidas de redução de risco. A lei define um quadro jurídico para o tratamento de substituição de drogas anteriormente tolerado, mas não explicitamente permitido. Além disso, fornece uma base jurídica para a criação de salas de injeção e outros meios considerados adequados para contribuir para reduzir os danos causados ​​pelo consumo de drogas.



- Aqui vai uma lista com as drogas que são substituídas legalmente para o tratamento daqueles usuários que não querem ou não conseguem fazer abstinência:  




- Aqui vai o link de uma instituição (que se chama Abrigado) que faz tratamento, prevenção e redução de danos relacionados ao uso de drogas. Lá, há uma sala de consumação de drogas, local para dormir, fazer refeições, área de lazer e o tratamento não é obrigatório. Você pode por exemplo, usar drogas lá, dormir no local, mas não necessariamente participar das terapias:


http://www.cnds.lu/structures/abrigado/
Como assim? Melhor ter o usuário perambulando pelo centro de tratamento, do que na rua, não? Pesquisas indicam que aumenta a probabilidade de que em algum momento ele pode tentar fazer o tratamento.
 
- O governo luxemburguês distribui seringas gratuitamente para os usuários. A distribuição de seringas tem como objetivo diminuir a quantidade de infecções de hepatite e HIV.



- Como visto anteriormente, há locais específicos para consumir drogas.



- Assim como no Brasil, há tratamento ambulatorial e tratamento de internação.



- Apesar da reforma de lei de 2001, uma análise do governo mostrou que entre 2005 e 2009 as despesas públicas relacionadas às drogas permaneceram estáveis. Isto é, o fato de distribuir seringas, abrir locais de consumo de drogas, descriminalizar o uso da maconha, etc, teve gastos, mas provavelmente ganhos em relação a diminuição da criminalidade e gastos com saúde.



- De acordo com uma pesquisa feito pelo EMCDDA (European Monitoring Centre for Drugs and Drug Addiction), o uso de drogas diminuiu em Luxemburgo entre os anos de 1999 e 2010. O número de pessoas infectadas por HIV também diminuiu, já o de Hepatite aumentou.



- As pesquisas em relação ao uso de drogas aqui em Luxemburgo vão no sentido de observar o ambiente dos usuários. Como a famosa pesquisa do cientista Bruce Alexander da Universidade de Simon Fraser chamada “Rat Park”, em que resumindo, sua hipótese era de que as drogas em si, não causam dependência, e que o vício aparente em opiáceos observados em ratos de laboratório expostos a essas drogas é atribuído às suas condições de vida, e não a qualquer propriedade viciante da droga em si

Rat Park


Para testar sua hipótese, Alexander construiu o Rat Park, de 8,8 m2, 200 vezes a metragem quadrada de uma gaiola de laboratório padrão. Havia 16 -20 ratos de ambos os sexos na colônia, uma abundância de alimentos, bolas e rodas para brincar, espaço suficiente para o acasalamento e cuidados com ninhadas. Os resultados do experimento foram de acordo com sua hipótese. Os ratos que tinham sido forçados a consumir cloridrato de morfina durante 57 dias consecutivos, foram trazidos para Rat Park e foi dada uma escolha entre a água da torneira e água contaminada com morfina. Para a maior parte, eles escolheram a água. Sendo assim, os ratos que nascem em condições "extremas", como pequenas gaiolas (isto é, menor probabilidade de variarem seus comportamentos) são claramente mais propensos a se automedicar.



Enfim, não é sobre as drogas. É sobre o meio social em que vivemos.




Bom, vou parar por aqui, que recebi uns toques que textos muito longos desinteressam mais rapidamente o pessoal. Então vou deixar para contar outras histórias de drogas em outro momento.



Links:



















Cíntia